
A hipocrisia corporativa e saúde mental atingem seu auge durante o mês de setembro. De repente, os feeds de redes sociais e as comunicações internas das empresas se enchem de laços amarelos. Vemos slogans sobre a importância de cuidar uns dos outros e da valorização da vida. Contudo, por trás dessas fachadas bem-intencionadas, uma realidade sombria e contraditória persiste em muitas organizações, transformando o ambiente de trabalho em um gatilho para o adoecimento.
Enquanto o marketing promove uma imagem de cuidado e empatia, os departamentos internos continuam a operar sob uma lógica de pressão insustentável. As metas inalcançáveis, as jornadas de trabalho desumanas e uma cultura que confunde exploração com “vestir a camisa” ou “espírito de dono” permanecem intactas. Portanto, a campanha de conscientização se torna apenas uma peça de publicidade, vazia de significado prático e, pior, ofensiva para quem vive o oposto no dia a dia.
Neste artigo, vamos além dos discursos prontos e das campanhas coloridas. Analisaremos casos reais, como a recente condenação da Ambev e situações comuns no setor bancário, que expõem essa perigosa contradição. Afinal, falar sobre saúde mental exige, antes de tudo, a coragem de transformar as práticas que causam o sofrimento, e não apenas a habilidade de criar um post bonito para as redes sociais.
O Caso Ambev: Quando a Promoção se Torna um Gatilho para o Burnout
O recente caso da Ambev, condenada a indenizar um funcionário com Burnout, é um exemplo claro de como as estruturas corporativas podem ser devastadoras. Um colaborador foi promovido ao cargo de coordenador, um momento que deveria ser de reconhecimento e celebração. No entanto, a promoção veio acompanhada de um fardo insustentável de responsabilidades. Ele passou a liderar três turnos de produção, além de cuidar da manutenção e assumir outros processos operacionais.
Dessa forma, o que deveria ser um passo à frente na carreira se transformou em um caminho direto para a exaustão. A conta dessa sobrecarga chegou alta: esgotamento extremo, adoecimento mental e, por fim, a necessidade de afastamento do trabalho. A decisão da Justiça do Trabalho em favor do funcionário é emblemática, pois reconhece formalmente a conexão direta entre as práticas de gestão da empresa e o dano causado à saúde do trabalhador.
Em outras palavras, este caso demonstra que o problema não é o trabalho em si, mas a cultura que normaliza o impossível. Não se trata de um incidente isolado, mas de um sintoma de um modelo de gestão que prioriza os resultados a qualquer custo, ignorando os limites humanos. A condenação serve como um alerta poderoso para todas as empresas: não adianta promover campanhas de saúde mental se a própria organização é o agente do adoecimento.
A Pressão Invisível: A Hipocrisia Corporativa e Saúde Mental nos Bancos
Além do setor industrial, o setor bancário é outro notório protagonista de casos de assédio moral organizacional e adoecimento mental. Imagine um gerente de contas que inicia seu dia já recebendo mensagens sobre metas que parecem crescer exponencialmente. Ele é pressionado a vender produtos, seguros e investimentos, muitas vezes sob a ameaça velada ou explícita de demissão caso não atinja os números impostos. Essa pressão não cessa ao final do expediente; ela continua por meio de grupos de WhatsApp e e-mails fora de hora.
Essa rotina de cobrança incessante e metas abusivas cria um ambiente de medo e ansiedade constantes. Consequentemente, muitos bancários desenvolvem quadros severos de estresse, depressão e síndrome de Burnout. Há inúmeros processos na Justiça do Trabalho em que os tribunais reconhecem que essa cultura de pressão sistêmica constitui assédio moral organizacional, resultando em condenações para grandes instituições financeiras que, ironicamente, também promovem robustas campanhas de Setembro Amarelo.
Portanto, o discurso de “cuidado com o colaborador” se choca violentamente com a prática diária. A empresa que patrocina palestras sobre bem-estar é a mesma que mede o valor de um funcionário por planilhas inatingíveis. Este cenário valida a percepção de hipocrisia, pois os trabalhadores percebem que a preocupação com sua saúde mental é apenas uma formalidade, enquanto a verdadeira prioridade da companhia continua sendo o lucro, independentemente do custo humano envolvido.
Além dos Posts: O Que a Prevenção Realmente Significa?
Falar sobre prevenção do suicídio e promoção da saúde mental no ambiente de trabalho vai muito além de ações performáticas. Uma palestra motivacional ou uma aula de ioga oferecida uma vez ao ano não anula os efeitos de uma cultura tóxica que opera nos outros 364 dias. A verdadeira prevenção começa com uma análise honesta e corajosa das práticas internas da empresa. É preciso questionar se as metas são realistas e se as jornadas de trabalho são humanas.
Além disso, a prevenção genuína envolve capacitar as lideranças. Os gestores devem ser treinados não apenas para cobrar resultados, mas principalmente para liderar com empatia, reconhecer os sinais de esgotamento em suas equipes e criar um ambiente psicologicamente seguro. Um líder que sabe ouvir, oferecer suporte e proteger seu time de pressões excessivas é a ferramenta de prevenção mais eficaz que uma organização pode ter.
Por conseguinte, a mudança deve ser estrutural. Isso significa criar canais de denúncia seguros e eficazes contra assédio, respeitar o direito à desconexão (o direito de não responder a demandas de trabalho fora do expediente) e promover uma cultura onde reconhecer os próprios limites e pedir ajuda não seja visto como fraqueza. Prevenção é prática diária, não uma campanha sazonal.
A Responsabilidade da Liderança na Saúde Mental
Os líderes estão na linha de frente e desempenham um papel crucial na promoção da saúde mental ou no seu detrimento. Um gestor que chama exploração de “comprometimento” ou sobrecarga de “oportunidade de desenvolvimento” está ativamente contribuindo para um ambiente adoecedor. Essa romantização do excesso de trabalho é uma das raízes do problema e precisa ser combatida com formação e conscientização da alta e média gerência.
Dessa forma, é fundamental que as empresas invistam em treinar seus líderes para gerir pessoas, e não apenas processos ou resultados. Uma liderança humanizada é aquela que entende que a produtividade sustentável depende do bem-estar de sua equipe. Isso inclui realizar conversas francas sobre carga de trabalho, distribuir tarefas de forma equilibrada e, acima de tudo, dar o exemplo, respeitando seus próprios limites e incentivando os outros a fazerem o mesmo.
Afinal, a responsabilidade de um líder não termina na entrega de uma meta. Ela se estende ao cuidado com as pessoas que tornam essa entrega possível. Uma empresa que realmente se importa com a saúde mental de seus funcionários é aquela que cobra de suas lideranças a criação de um ambiente saudável, onde a pressão por resultados não suplante o respeito pela dignidade humana.
Conclusão: Da Campanha à Prática
Em resumo, os casos da Ambev e as inúmeras ações contra o setor bancário revelam uma verdade inconveniente: muitas empresas que abraçam o Setembro Amarelo são as mesmas que criam as condições para o adoecimento mental. Essa hipocrisia corporativa e saúde mental não só invalida as campanhas, como também aprofunda o sentimento de desamparo e cinismo entre os funcionários, que se sentem desrespeitados em seu sofrimento.
Portanto, é nosso papel, como sociedade e como profissionais, olhar além dos selos coloridos e questionar as práticas reais das organizações. O diálogo sobre saúde mental é essencial, mas ele perde toda a sua força se não for acompanhado de mudanças concretas na cultura, na gestão de metas e na forma como as lideranças se relacionam com suas equipes. Apoiar o Setembro Amarelo deve significar exigir ambientes de trabalho mais justos e seguros.
Afinal, a verdadeira inspiração não vem de um post bem elaborado, mas de empresas que têm a coragem de se transformar de dentro para fora. Saúde mental no trabalho não é um tema para um único mês; é um compromisso diário com a dignidade, o respeito e o cuidado genuíno. De discursos bonitos, o mundo corporativo já está cheio. O que precisamos, urgentemente, é de mais prática.
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